Thelma Panerai Alves
A presença do cinema na escola ultrapassa a ideia de utilizá-lo como recurso complementar para ilustrar conteúdos curriculares. Pesquisadores do campo da educação, da comunicação e da cultura visual têm defendido que o cinema é uma das mais ricas expressões da linguagem audiovisual, capaz de produzir experiências estéticas, afetivas, cognitivas e éticas que contribuem para a formação dos sujeitos. Entre suas diversas expressões, o cinema ocupa lugar de destaque por sua capacidade de articular imagem, som, narrativa, memória e emoção em processos significativos de formação humana. Neste sentido, quando a escola vai ao cinema, ou quando o cinema entra na escola, abre-se a possibilidade de ampliar e potencializar os modos de ensinar, aprender, sentir e compreender o mundo.
Vivemos em uma sociedade marcada pela hegemonia das imagens, tais como filmes, séries, plataformas digitais e redes sociais, que participam ativamente da construção de nossas identidades, valores e memórias. Nesse cenário, torna-se fundamental que a escola assuma o papel de formar espectadores críticos, capazes não apenas de consumir o fluxo imagético, mas de analisá-lo, interpretá-lo e produzir sentidos a partir dele.
Para Alain Bergala, uma das principais referências internacionais sobre cinema e educação, o cinema não deve ser tratado apenas como ferramenta pedagógica a serviço de outros conteúdos. Em sua perspectiva, o cinema é uma arte e, como tal, deve ser experimentado em sua dimensão estética e criativa. Segundo o autor, a escola pode constituir um espaço privilegiado de encontro com a arte cinematográfica, oferecendo aos estudantes oportunidades de desenvolver a sensibilidade, a imaginação e a capacidade de olhar o mundo de forma mais complexa (BERGALA, 2008).
Nessa mesma direção, Adriana Fresquet (2013; 2017) argumenta que a potência educativa do cinema não reside apenas naquilo que ele ensina sobre determinado tema, mas sobretudo na experiência que proporciona aos sujeitos. Para a autora, o encontro entre cinema e educação cria espaços de sensibilidade, imaginação e alteridade, capazes de romper com a rotina escolar e abrir brechas para o inesperado. Ao assistir, discutir ou produzir filmes, estudantes e professores exercitam formas de perceber, narrar e compreender a si mesmos e aos outros.
Portanto, o cinema não apenas transmite conhecimentos, mas produz experiências estéticas que ampliam o repertório cultural e favorecem a formação ética e política dos sujeitos. Ao assistir a um filme, o estudante não apenas recebe conteúdos, mas é convidado a interpretar, sentir, recordar e atribuir significados às imagens e narrativas apresentadas. Nesse sentido, o cinema nos “toca” e nos transforma (Larrosa, 2002). As imagens podem ser compreendidas como importantes pedagogias culturais, pois ensinam modos de ser, pensar e agir. E uma das forças do discurso fílmico consiste justamente em provocar reflexões sobre questões humanas que ultrapassam a história narrada na tela.
As contribuições do cinema para a educação também dialogam com o campo das narrativas autobiográficas. As reflexões de Adriana Fresquet ajudam a compreender o cinema como dispositivo de memória e formação, capaz de mobilizar lembranças, afetos e experiências pessoais. Muitos filmes abordam trajetórias de vida, memórias, processos de formação e construção de identidades, constituindo importantes mediadores para a reflexão sobre si e sobre o outro. Ao dialogar com narrativas cinematográficas, professores e estudantes podem revisitar suas próprias histórias, reconstruir sentidos e produzir novas interpretações sobre si mesmos e sobre o mundo.
Assim, é perceptível que as possibilidades pedagógicas do cinema são amplas. Os filmes podem favorecer discussões sobre temas sociais, históricos, políticos e culturais; estimular a empatia e a reflexão ética; promover debates sobre diversidade, gênero, raça, inclusão e direitos humanos; além de contribuir para o desenvolvimento da leitura crítica das imagens. Entretanto, seu potencial formativo não reside apenas nos temas abordados e nas imagens mostradas. A linguagem cinematográfica, composta por enquadramentos, movimentos de câmera, iluminação, montagem, trilha sonora e construção narrativa, também é objeto de análise e aprendizagem.
Nesse aspecto, Duarte (2002) argumenta que compreender o cinema implica aprender a ler a linguagem audiovisual, reconhecendo os códigos presentes nas imagens em movimento e as estratégias utilizadas para produzir sentidos. A alfabetização audiovisual torna-se, assim, uma dimensão importante da formação contemporânea, especialmente em um cenário em que as linguagens visuais ocupam papel central na comunicação e na cultura.
Nas últimas décadas, o avanço das tecnologias digitais ampliou ainda mais essas possibilidades. Os estudantes deixaram de ser apenas espectadores para se tornarem produtores de conteúdos audiovisuais. Smartphones, aplicativos de edição e plataformas digitais possibilitam a criação de curtas-metragens, documentários, videobiografias, podcasts e narrativas transmidiáticas. Nesse contexto, o cinema aproxima-se da cultura digital e das pedagogias participativas, favorecendo práticas de autoria, colaboração e protagonismo estudantil.
Assim, quando a escola vai ao cinema, não se trata apenas de assistir a filmes. Trata-se de criar espaços de encontro com diferentes culturas, sensibilidades e formas de narrar a experiência humana. Trata-se de reconhecer o audiovisual como linguagem, arte, cultura e conhecimento. Em um mundo saturado de imagens, educar o olhar torna-se tão importante quanto alfabetizar para a leitura e a escrita. O cinema, enquanto expressão da linguagem audiovisual, pode contribuir para uma educação mais crítica, sensível, democrática e humanizadora.
Mais do que transmitir conteúdos, o cinema pode educar o olhar, ampliar a escuta e promover experiências de encontro com o outro e consigo mesmo.
Referências
BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ, 2008.
DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
FANTIN, Mônica. Cinema e imaginação infantil: a mediação entre o visível e o invisível. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 34, n. 2, 2009.
FRESQUET, Adriana (org.). Dossiê Cinema e Educação. Rio de Janeiro: CINEAD/UFRJ, diversas edições.
LARROSA, Jorge. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
MIGLIORIN, Cezar; FRESQUET, Adriana (orgs.). Cinema e Educação: a lei 13.006 – reflexões, perspectivas e propostas. Belo Horizonte: Universo Produção, 2015.
NAPOLITANO, Marcos. Como usar o cinema na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2013.
OPENAI. ChatGPT. Modelo de linguagem baseado em inteligência artificial. Disponível em: https://openai.com/pt-BR/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 15 jun. 2026.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
ℹ️ Imagem gerada com auxílio do ChatGPT (OpenAI), a partir de prompt elaborado pela autora (2026).

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