No Brasil, desde 2014, a Lei 13.006 determina a exibição de filmes brasileiros na Educação Básica. A conquista foi importante. Afinal, reconhecer o cinema como parte da formação escolar significa reconhecer que educar não é apenas transmitir conteúdos, mas também formar sensibilidades, ampliar horizontes e cultivar modos de ver o mundo. Entretanto, mais de uma década depois, uma pergunta permanece: exibir filmes é suficiente?
A pesquisadora Adriana Fresquet (2013, 2017) nos lembra que o cinema não deve ser reduzido a um recurso didático ou a uma simples ilustração de conteúdos. O cinema é experiência estética, ética e política. Ele nos ensina a olhar, a imaginar e a habitar outros mundos. Na mesma direção, Rosália Duarte (2002, 2009) defende que o encontro com o cinema constitui uma experiência cultural capaz de ampliar repertórios, sensibilidades e processos de formação humana. Para ambas, a presença do cinema na escola não se justifica por sua utilidade pedagógica imediata, mas por sua potência formativa.
Nesse sentido, a educação cinematográfica exige muito mais do que uma tela ligada na sala de aula. Entre assistir a um filme e aprender com ele existe um território de mediações: perguntas, conversas, silêncios, interpretações, emoções, memórias e descobertas. É nesse espaço que se produz aquilo que Alain Bergala (2008) chamou de encontro com a arte. Para o autor, o cinema na escola deve preservar sua dimensão estética, capaz de provocar deslocamentos, ampliar sensibilidades e criar novas formas de ver o mundo.
Não por acaso, desde as experiências pioneiras desenvolvidas na França, que inspiraram iniciativas em diferentes países, a educação cinematográfica passou a ser compreendida como parte da formação cultural e cidadã dos estudantes.
No entanto, é justamente nesse ponto que emerge um dos grandes desafios brasileiros. Embora a Lei 13.006 tenha representado um avanço importante, ainda convivemos com um paradoxo: temos uma lei, mas não uma política nacional estruturada de educação audiovisual; temos a obrigatoriedade da exibição de filmes, mas não dispomos de formação docente em larga escala; temos diferentes filmes, mas não contamos com uma curadoria nacional capaz de apoiar as escolas na escolha e contextualização das obras. Em outras palavras, construímos uma política de acesso, mas ainda não construímos uma política de formação.
A literatura da área tem mostrado que a simples exibição de filmes não garante processos de formação cultural ou de literacia audiovisual. Fresquet (2017) argumenta que o cinema na escola requer experiências de criação, reflexão e diálogo. E Duarte (2009), por sua vez, destaca que a educação para o cinema envolve a construção de competências de leitura crítica da cultura audiovisual. O desafio brasileiro, portanto, não é apenas cumprir a legislação, mas criar condições para que estudantes e professores desenvolvam uma relação mais profunda, crítica e significativa com as imagens.
É justamente nesse contexto que experiências internacionais podem oferecer pistas importantes. Inspirado em uma tradição europeia que tem na França uma de suas principais referências, Portugal constitui hoje uma experiência consistente de integração entre cinema e educação. O país avançou na construção de uma política de educação cinematográfica baseada na literacia audiovisual. Nesse modelo, o objetivo não é apenas garantir o acesso às obras, mas formar espectadores críticos e sensíveis, capazes de compreender a linguagem cinematográfica, produzir narrativas audiovisuais, participar de cineclubes, dialogar sobre cinema e reconhecer o audiovisual como uma dimensão fundamental da cultura contemporânea.
Mais do que políticas públicas distintas, Brasil e Portugal revelam diferentes compreensões sobre o papel do cinema na educação. Enquanto o Brasil estruturou sua ação em torno da obrigatoriedade da exibição de filmes, o modelo português compreendeu algo fundamental: ver cinema não é o mesmo que compreender cinema. Por isso, o Plano Nacional de Cinema daquele país investe na formação de professores, na curadoria de obras, em materiais pedagógicos, em plataformas de acesso aos filmes e em redes de escolas comprometidas com a educação cinematográfica.
A experiência portuguesa não é um caso isolado. Na América do Sul, o Chile também se destaca pela seriedade com que trata a educação audiovisual e a formação de públicos. Ao longo das últimas décadas, o país desenvolveu iniciativas que aproximam cultura e educação, promovendo o acesso ao cinema, a valorização do patrimônio audiovisual e a formação de espectadores críticos desde a infância. Mais do que levar filmes para a escola, a experiência chilena busca criar condições para que estudantes e professores aprendam a ler, interpretar, discutir e produzir imagens. Em comum, Portugal e Chile demonstram que a educação cinematográfica não se limita à exibição de obras, mas depende de políticas permanentes de formação docente, curadoria cultural, mediação pedagógica e acompanhamento das práticas educativas.
Além de Portugal e Chile, países como Argentina, Uruguai e Colômbia também desenvolveram experiências significativas de formação de públicos e educação audiovisual.
Talvez o desafio brasileiro já não seja colocar o cinema dentro da escola. O cinema já entrou. O desafio agora é criar condições para que ele permaneça.
Precisamos de políticas públicas que articulem formação docente, curadoria cultural, cineclubismo escolar, plataformas de acesso e acompanhamento pedagógico. Precisamos compreender que educação cinematográfica não é um evento, mas um processo.
Em tempos de cultura digital, inteligência artificial e circulação massiva de imagens, aprender a ler o mundo visual tornou-se tão importante quanto aprender a ler palavras. Inspirados por Rancière (2012), podemos compreender que toda educação envolve modos de ver, interpretar e tornar o mundo inteligível.
A escola que ensina seus estudantes a interpretar imagens, questionar narrativas e produzir sentidos não está apenas formando espectadores. Está formando cidadãos.
Quando as luzes da sala de aula se apagam para o início de um filme, algo muito maior pode acontecer do que uma simples sessão de cinema. Pode começar uma experiência de educação do olhar. E talvez seja exatamente essa política do olhar que o Brasil ainda precisa construir.
Portanto, o próximo passo não é exibir mais filmes; é construir uma política nacional de educação cinematográfica. As experiências de Portugal, do Chile e de outros países da América do Sul mostram que isso exige mais do que legislação. Exige formação docente, curadoria cultural, mediação pedagógica, plataformas de acesso, redes de escolas e o reconhecimento do cinema como arte, linguagem e direito cultural. Somente assim a escola poderá transformar a exibição de filmes em educação do olhar. Porque educar para o cinema é, antes de tudo, educar o olhar.
Algumas Referências:
BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE-FE/UFRJ, 2008.
DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
DUARTE, Rosália. Cinema e educação: refletindo sobre cinema e educação. Revista Educação e Sociedade, Campinas, v. 23, n. 78, p. 75-88, 2002.
FRESQUET, Adriana (Org.). Cinema e Educação: reflexões e experiências com professores e estudantes de educação básica. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
FRESQUET, Adriana (Org.). Cinema e Educação: a Lei 13.006 – reflexões, perspectivas e propostas. Rio de Janeiro: CINEAD/LISE/UFRJ, 2017.
RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
Link:
O link oficial para consulta da Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014, no portal da Presidência da República é: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13006.htm

Mediações como perguntas, conversas, silêncios, interpretações, emoções, memórias e descobertas determinam uma amálgama possível para além do que se vê em um filme. Analisar as entrelinhas também é formar pessoas para construção de imaginários em múltiplas áreas do conhecimento. Quando países aceitam a educação audiovisual como um processo, todos os objetos de conhecimento ganham espaço para se manifestarem, seja em suas narrativas, iluminação, enquadramentos, sons, diálogos etc. O Brasil precisa, antes de tudo, superar a ideia de que a exibição de filmes é suficiente para uma educação do olhar, pois apenas exibir filmes não garante a literacia audiovisual. Tudo requer técnica, currículo e, acima de tudo, formação profissional.
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