Ana Beatriz Gomes Carvalho
Nas últimas décadas, a pesquisa em Educação e Tecnologias passou por uma transformação significativa. Se, no início dos anos 2010, grande parte das investigações estava voltada para questões de acesso, inclusão digital e incorporação de computadores nas escolas, hoje o foco se desloca para fenômenos muito mais complexos, que envolvem elementos da cultura digital, inteligência artificial, narrativas transmídia, redes sociais, jogos digitais, cultura maker e novas formas de produção e circulação do conhecimento. Essa mudança acompanha as transformações da própria sociedade. As tecnologias deixaram de ser percebidas apenas como ferramentas de apoio ao ensino para serem compreendidas como elementos que participam da construção das experiências culturais, sociais e educativas contemporâneas. Nesse contexto, as pesquisas passaram a investigar não apenas o que as pessoas fazem com as tecnologias, mas também como elas produzem sentidos, estabelecem relações, constroem identidades e aprendem em ambientes cada vez mais conectados.
Ao longo dessa trajetória, o Grupo de Pesquisa Mídias Digitais e Mediações Interculturais tem acompanhado e contribuído para esse movimento por meio de estudos sobre formação de professores, autoria e colaboração em redes digitais, educação a distância, políticas públicas de inclusão digital e letramento digital. Nos últimos anos, novos objetos de investigação ganharam espaço. As pesquisas passaram a explorar as potencialidades educativas dos jogos digitais, das narrativas transmídia, das redes sociais, autobiografias e dos processos de imersão em ambientes digitais. Ao mesmo tempo, ampliaram-se os estudos sobre divulgação científica em plataformas digitais, comunidades de prática online, letramento científico nas redes e formas colaborativas de produção de conhecimento.
Outro movimento importante foi a consolidação das investigações sobre cultura maker e pensamento computacional. Nessas abordagens, o interesse não está apenas no uso de tecnologias, mas na criação, experimentação, resolução de problemas e desenvolvimento da criatividade. Laboratórios makers, Fab Labs e práticas de aprendizagem baseadas em projetos passaram a ocupar um espaço crescente nas discussões sobre novas possibilidades de aprendizagem no contexto digital.
A pandemia de Covid-19 também representou um marco para o campo. O ensino remoto emergencial evidenciou desigualdades, acelerou processos de digitalização e produziu novos questionamentos sobre os limites e as possibilidades das tecnologias na educação. Desde então, temas como reconfiguração digital da escola, experiências híbridas de aprendizagem e formação docente para contextos digitais tornaram-se ainda mais centrais nas agendas de pesquisa.
O avanço da inteligência artificial generativa e das plataformas digitais tem inaugurado novas frentes de investigação. Questões relacionadas à autoria, ética, produção do conhecimento, participação social e mediações culturais apontam para um cenário em constante transformação, no qual a educação continua sendo chamada a compreender criticamente as tecnologias e seus impactos na vida cotidiana.
Ao olhar para os últimos quinze anos, percebe-se que a pesquisa em Educação e Tecnologias deixou de se concentrar apenas nos dispositivos para voltar sua atenção às pessoas, às culturas e às experiências que emergem nas interações digitais. É justamente nessa convergência entre tecnologia, educação e cultura que se encontram alguns dos desafios e das possibilidades mais instigantes para compreender o presente e imaginar os futuros da educação. Esse movimento também foi identificado nos textos dos relatórios nacionais e internacionais de instituições que monitoram o uso de tecnologias digitais no contexto das escolas.
Os resultados das pesquisas têm evidenciado que as tecnologias digitais favorecem práticas de colaboração, autoria, criatividade e participação ativa dos estudantes, mas também apontam desafios e obstáculo, como a plataformização no ensino, o domínio dos algoritmos, a centralidade das “BigTech” e os prejuízos da exposição em excesso nos ambientes digitais. Mais do que investigar ferramentas, trata-se de compreender como as tecnologias reconfiguram as experiências humanas de aprender, ensinar e produzir conhecimento. É um território fértil para formular perguntas relevantes, desenvolver investigações inovadoras e contribuir para a construção de práticas educacionais mais criativas, inclusivas e conectadas ao mundo contemporâneo.

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